No dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, retomamos uma conversa que insiste em voltar, não porque gostamos de olhar para o passado, mas porque o presente ainda nos cobra respostas. Afinal, por que, em pleno 2025, ainda precisamos ainda discutimos igualdade salarial entre pessoas negras e brancas? Por que ainda naturalizamos a ausência de pessoas negras em cargos de liderança, em universidades, em espaços de decisão?
Para entender o agora, é preciso revisitar o ontem, não para lamentar, mas para entender o que precisa ser transformado.
As primeiras formas de escravidão na Antiguidade
A escravidão é tão antiga quanto as primeiras sociedades organizadas.
Registros mostram sua existência em civilizações da Mesopotâmia, Egito, Grécia e Roma, há mais de 4.000 anos. Naquele tempo, a escravidão era vista como resultado de guerras: povos vencidos eram escravizados pelos vencedores, e serviam como mão de obra em lavouras, construções, ou no serviço doméstico.
No Egito Antigo, por exemplo, muitos trabalhadores que ergueram os templos e pirâmides eram servos, prisioneiros ou devedores, nem sempre escravos no sentido moderno, mas subordinados sem liberdade.
Na Grécia Antiga, a escravidão era base da economia e da filosofia,
mesmo pensadores como Aristóteles defendiam que alguns homens “nasciam para mandar” e outros “para servir”. Em Roma, o sistema escravocrata atingiu enorme escala, estima-se que até um terço da população do Império Romano fosse composta por pessoas escravizadas.
Com a queda do Império Romano em 476 d.C. a escravidão europeia diminuiu, dando lugar à servidão feudal, onde o camponês era preso à terra, mas não podia ser comprado ou vendido. Contudo, nas regiões islâmicas e africanas, a escravidão continuou existindo, principalmente sob forma de tráfico regional de pessoas (inclusive de africanos por outros africanos ou árabes). Esse comércio interno de cativos africanos já existia muito antes da colonização europeia, mas em escala bem menor e com natureza diferente, os cativos geralmente eram incorporados às famílias ou tribos vencedoras, e não tratados como “mercadoria” industrializada.
O mundo islâmico organizou um comércio sistemático e de longa duração, conhecido como o Tráfico Transaariano e o Tráfico do Oceano Índico. Esses sistemas duraram por quase mil anos (do século VII ao XIX).
Rotas principais:
- Tráfico Transaariano: cruzava o deserto do Saara, levando pessoas das regiões do Sudão, Mali e Chade para o norte da África e o Oriente Médio.
- Tráfico do Oceano Índico: conectava a costa oriental da África (Zanzibar, Moçambique, Somália) a regiões como Arábia, Pérsia, Índia e até a China.
Em muitos casos, os cativos eram prisioneiros de guerra, devedores ou pessoas de tribos rivais. As pessoas escravizadas podiam, em alguns contextos, ser incorporadas às famílias, ascender socialmente, casar-se ou obter liberdade. O fator racial não era determinante: havia escravos brancos, negros e de outras origens. A escravidão era doméstica, militar ou administrativa, e não industrial nem racializada.
Por volta de 1450, tudo muda. Com as grandes navegações e a expansão portuguesa pela costa da África, o comércio regional de cativos se transforma num tráfico transatlântico, um sistema industrializado e altamente lucrativo.
O que os europeus fizeram:
- Compraram cativos de líderes locais e comerciantes árabes já envolvidos no tráfico regional.
- Criaram feitorias (postos comerciais) na costa africana, como em Elmina (Gana, 1482).
- Iniciaram o envio massivo de africanos para o Brasil, Caribe e América do Norte.
A diferença fundamental é que o comércio europeu (Portugal e Espanha) passa a industrializar o tráfico humano. Constrói uma economia baseada na escravidão (plantações de açúcar, algodão, café). E introduz o racismo como justificativa moral e política para a escravidão. Estima-se que mais de 12 milhões de africanos tenham sido traficados para as Américas entre os séculos XVI e XIX e cerca de 5 milhões trazidos ao Brasil.
A escravidão moderna foi racista em sua essência, pela primeira vez, a cor da pele passou a ser usada como justificativa “natural” para escravizar alguém. Teorias pseudocientíficas do século XVIII tentavam legitimar essa prática, criando uma hierarquia racial que sustentaria o racismo estrutural até os dias de hoje.
Em 1789 a Revolução Francesa, frequentemente ensinada como o grande marco da liberdade moderna. Instituiu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e proclamou que todos tinham direitos naturais e inalienáveis: liberdade, igualdade e fraternidade. Porém, a pergunta que permanece é incômoda e necessária:
“Todos quem?”
Enquanto Paris celebrava a liberdade como valor universal, milhões de africanos sequestrados eram escravizados nas Américas. A igualdade defendida nos salões iluministas excluía negros, mulheres, pobres, colonizados. A base filosófica dos direitos humanos nasce, portanto, incompleta e seletiva. E isso importa porque muitas de nossas contradições atuais têm origem exatamente aí.
O Movimento Abolicionista: Entre a Teoria da Igualdade e a Realidade da Exclusão
No Brasil, a escravidão durou mais de 350 anos. Fomos o último país das Américas a abolir a escravidão, em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea, por Princesa Isabel. Mas é preciso desfazer um mito muito consolidado, a abolição não foi um ato de benevolência da monarquia. Ela foi resultado de dois grandes vetores históricos:
- A resistência e mobilização do movimento negro
- A pressão econômica e diplomática da Inglaterra
A Inglaterra, já industrializada, começou a defender o trabalho assalariado, que considerava mais eficiente e lucrativo para o capitalismo moderno.
Isso porque, pessoas assalariadas consomem e pessoas escravizadas não são mercado. Ou seja, o trabalho escravo não sustentava o modelo capitalista industrial que a Inglaterra desejava expandir.
Dessa forma, a Inglaterra pressionou o Brasil a acabar com o tráfico negreiro. O governo brasileiro enfrentou ameaças de bloqueio comercial no Atlântico. Tratados e leis foram aprovados por pressão internacional, como a Lei Eusébio de Queirós (1850). A meta britânica era abrir mercados para seus produtos manufaturados.
Portanto, a abolição ocorreu menos por reconhecimento da humanidade negra e mais por interesses econômicos e diplomáticos.
E o que acontece após a abolição?
O Estado brasileiro não garantiu terra, educação, salário, moradia, reparação ou integração. A liberdade foi dada no papel, mas a exclusão continuou na prática.
A Política de Substituição da Mão de Obra Negra: Um Projeto de Branqueamento
Após 1888, o Brasil precisava reorganizar sua base produtiva. Qual teria sido o caminho justo? Incorporar pessoas negras na economia. Mas não foi isso que aconteceu. O Estado brasileiro optou por importar mão de obra europeia, financiando: Viagem, Salário, Moradia, Estrutura de trabalho para italianos, alemães, portugueses e espanhóis, enquanto negros recém-libertos continuavam sem acesso a direitos básicos. Isso não foi acaso. Foi política de Estado chamada posteriormente de projeto de branqueamento.
O imaginário da época defendia que o progresso tinha cor e ela era branca.
Esse movimento consolidou o racismo como estrutura econômica, associou negro ao trabalho servil, não à vida cidadã e excluiu sistematicamente pessoas negras dos espaços de ascensão social. E essa marca não desapareceu. Ela apenas se sofisticou ao longo do tempo.
A Inserção Forçada na Marinha e a Revolta da Chibata
Sem acesso a emprego ou terra, muitos negros buscaram trabalho nas Forças Armadas, especialmente a Marinha. Ali, encontraram não cidadania, mas humilhação.
A Revolta da Chibata (1910), liderada por João Cândido, denunciou:
- Castigos físicos como açoites (as chibatas)
- Hierarquia racializada dentro da corporação
- A manutenção da lógica escravocrata em instituições estatais
A resposta do governo foi violenta, apagando e punindo os líderes da revolta. A escravidão terminou juridicamente, mas persistiu culturalmente e institucionalmente.
A Lenta Conquista de Reconhecimento
Ao longo do século XX, movimentos importantes marcaram a luta pela dignidade:
No mundo:
- Martin Luther King Jr. e os direitos civis nos EUA.
- Nelson Mandela contra o apartheid na África do Sul.
No Brasil:
- Abdias do Nascimento e o Teatro Experimental do Negro.
- Movimento Negro Unificado (1978).
- Constituição de 1988, criminalizando o racismo.
- Lei 10.639/2003, tornando obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira.
- Políticas de cotas no ensino superior e concursos públicos (2012–2016).
Esses avanços foram resultado de luta, nunca concessão.
A Mulher Negra: A Base da Pirâmide Social
Se olharmos para a estrutura social brasileira, a posição é clara: No topo homens brancos, depois mulheres brancas, a seguir homens negros, na base, mulheres negras. E os dados confirmam:
- Mulheres negras recebem 46% menos que homens brancos com a mesma formação (IBGE, 2023).
- Elas são as que mais sofrem violência doméstica, abuso e feminicídio (Atlas da Violência, 2024).
- Apenas 0,4% ocupam cargos executivos no Brasil (Insper & Instituto Identidades do Brasil, 2024).
Isso não é coincidência. É estrutura. É histórico. É sistêmico.
E Hoje? Por Que As Cotas Ainda São Necessárias?
Porque não existe meritocracia onde não existe igualdade de ponto de partida. O discurso do “esforço individual” ignora que:
- Pessoas brancas tiveram acesso histórico a educação, terra, bens e redes sociais.
- Pessoas negras foram sistematicamente excluídas dessas mesmas oportunidades.
As cotas não são privilégio. São correção histórica.
Evolução da Consciência: Onde Estamos e Para Onde Precisamos Ir
Sim, houve progresso. Tivemos o crescimento de 300% na presença de negros no ensino superior após as cotas (MEC, 2023). Implementação de programas de trainee inclusivos (afirmativos) em algumas organizações, e a representatividade cultural foi ampliada. Mas ainda falta:
- Equidade salarial
- Acesso à liderança e C-level
- Ambientes seguros de desenvolvimento e reconhecimento
- Lideranças com empatia cognitiva e responsabilidade social
Porque não existe inclusão sem intencionalidade.
Minha Opinião — Como Mulher, Educadora e Liderança
Eu acredito profundamente que as organizações são um dos pilares mais importantes de transformação da sociedade. Porque é no trabalho que se forma cultura, pertencimento e visão de mundo. Mas para transformar, precisamos de líderes conscientes, políticas estruturadas e responsabilidade histórica.
Neutralidade nunca é neutra. Ou estamos contribuindo para reduzir desigualdades ou estamos reforçando-as.
E eu escolho atuar para reduzir. Todos os dias. Com intencionalidade. Com consciência. Com ação. Consciência Não Pode Ser Apenas Um Dia.
20 de novembro não é sobre o passado. É sobre quem queremos ser como sociedade. A consciência negra é um compromisso diário com dignidade, justiça e humanidade. A população negra continua em estado de sobrevivência, onde ganham apenas o suficiente para comer e morar, como já era no período de escravidão, até quando vamos assistir essa situação dos nossos sofás? A desigualdade no Brasil é uma das mais altas do mundo, e nós os privilegiados, não nos importamos em buscar nenhum movimento de mudança porque a situação é confortável para nós, a pergunta que deixo é:
O que você, como pessoa, como profissional e como líder está fazendo para não perpetuar a exclusão? A história não acabou. Mas nós decidimos como ela continua.
Referências
- IBGE (2023). Desigualdades Sociais por Cor e Raça no Brasil.
- Atlas da Violência (2024). Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
- Insper & Instituto Identidades do Brasil (2024). Executivas Negras.
- Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789).
- Lei Eusébio de Queirós (1850).
- Nascimento, Abdias (1980). O Genocídio do Negro Brasileiro.
- Levine, Robert (2009). A Abolição da Escravidão no Brasil.
- Domingues, Petrônio (2021). Movimento Negro no Brasil.


